8. MUNDO 5.6.13

BRANCOS MISERVEIS
Na frica do Sul, bero do apartheid, surge uma nova face da pobreza: as favelas exclusivamente brancas
Mariana Queiroz Barboza

DECADNCIA - Famlias convivem em meio  sujeira no acampamento de Coronation Park, em Krugersdorp

Durante quase 50 anos, a frica do Sul viveu  sombra de um regime extremo de segregao racial, que resultaria em um pas radicalmente dividido entre brancos e negros. O bairro onde as pessoas viviam, os lugares que frequentavam, as pessoas com quem se relacionavam, tudo era determinado pelas autoridades. A perversidade desse modelo  reproduzida em estatsticas: apesar de responder por 90% da populao, os negros e mestios foram subjugados pelos brancos, detentores de amplos privilgios sobre o restante da sociedade. Foi por isso que uma reportagem veiculada pela premiada rede britnica BBC alcanou enorme repercusso internacional. Nela, o editor John Simpson mostra a condio de misria e violncia que algumas comunidades brancas enfrentam hoje no pas, e questiona se os brancos tm algum futuro na frica do Sul. Vivendo em acampamentos prximos  capital, Pretria, sem gua nem eletricidade, em meio  sucata de carros abandonados e mveis velhos, os antigos opressores so agora o retrato da vulnerabilidade  ainda que isso corresponda a uma parcela pequena da minoria branca.

A entrega mensal de donativos. Dois lados  da misria, agora partilhada pelos brancos 

A polmica se concentrou na declarao de Ernst Roest, lder africner da organizao AfriForum, que afirmou  BBC que cerca de 400 mil brancos  ou mais de 10% da populao branca  podem estar vivendo na misria no pas e que h, pelo menos, 80 pequenas favelas exclusivamente brancas apenas nos arredores de Pretria. Roets usou sua conta no Twitter para dizer que 400 mil  uma estimativa da sociedade civil (no h nmeros oficiais) e que, principalmente nas regies oeste e norte de Pretria, h mais de 70 acampamentos de sem-tetos brancos, a maioria escondida em terras privadas. So pessoas excludas porque no recebem apoio governamental por serem brancas, afirmou. Pergunte a eles prprios se vocs no acreditam. Diante da enorme repercusso, o governo africano decidiu se pronunciar. A frica do Sul nunca esteve numa situao em que os brancos tm sido perseguidos, disse Keith Khoza, principal porta-voz do Congresso sul-africano, em entrevista ao jornal africano Mail & Guardian. Casos de crime e pobreza atingem todos os sul-africanos, independentemente da cor de suas peles. A opositora Aliana Democrtica tambm condenou a reportagem da BBC. O artigo e o vdeo criam a impresso de que os negros no sofrem na nova frica do Sul, declarou.

Pela escassez de nmeros oficiais, mensurar o tamanho real dessas comunidades  praticamente impossvel. H, sim, acampamentos de brancos, mas  difcil saber onde eles esto, disse  ISTO Georgina Alexander, pesquisadora do Instituto Sul-Africano de Relaes Raciais (SAIRR, na sigla em ingls), de Johannesburgo. O SAIRR calcula que a dimenso do problema seja bem menor. Baseado no censo de 2011 (ltimos dados disponveis), o instituto estima que existam 7.754 famlias, chefiadas por um branco, que vivem em habitaes informais, como barracos montados em propriedades e acampamentos sem-teto. Considerando a mdia de 3,6 pessoas por famlia, o SAIRR chega a 27.915 brancos miserveis na frica do Sul, o que corresponde a a 0,05% da populao total do pas. Segundo Georgina, no  possvel dizer se os brancos so excludos do acesso  ajuda governamental, j que no h informaes discriminadas por raa sobre quem  coberto pela rede de proteo do Estado. O fim do apartheid trouxe o fim da segregao legislada, afirma. Desde ento, houve muito progresso na integrao racial, embora a maior parte ocorra nas classes mdia e alta, como nas escolas privadas e universidades.

Depois do fim do apartheid, em 1994, o Congresso sul-africano lanou programas que tinham como metas reduzir a desigualdade e promover uma distribuio de renda mais justa. A mudana comearia por cima, na transferncia de ativos financeiros e propriedades para as mos de negros via emprstimos, por exemplo. Alm disso, as empresas deveriam empregar negros e mestios numa proporo semelhante  da populao mdia do pas, em todas as reas de sua operao. No demorou para surgirem denncias de que os novos contratos tinham fortes relaes com favorecimento poltico. Em alguns casos, a acusao  de que o poder pblico passou a pagar mais por servios menos qualificados s porque eram fornecidos por negros. E os brancos, no raro, reclamam da dificuldade em conseguir um emprego depois da graduao na universidade. De acordo com o relatrio mais recente do SAIRR, de 19 de maio, os negros com diploma superior esto mais propensos a encontrar um emprego nos primeiros 12 meses aps a formatura do que os brancos.

Desde o incio da redemocratizao, a taxa de desemprego cresceu entre os brancos de 3% para 5,7%. Mas, para os negros, o patamar ainda est ao redor dos 30%. E, afinal, os brancos da frica do Sul ainda tm mais chances de ser empregados do que habitantes das principais economias do mundo (nos Estados Unidos, o ndice de desemprego em 2012 ficou em 7,8%; no Canad, em 7,2%; e na zona do euro, em 11,8%). A concluso do relatrio do SAIRR  que as polticas afirmativas no conduziram os brancos ao desemprego nem  pobreza numa escala significativa, porque os brancos, que ainda tm mais acesso  educao, investiram na criao de novos negcios. As mudanas que o fim do apartheid trouxe  frica do Sul para uma sociedade mais integrada e representativa ocorrem de forma lenta e  inegvel que o branco ainda seja a cor predominante das elites. As diferenas nascidas da pele, contudo, agora criam novos desarranjos e prejudicam quem menos deveria se preocupar com as cores: os igualmente miserveis.
